Esta animação se passa na Era Muromachi no Japão, uma época particularmente gloriosa (devido a inacreditável vitória do país sobre as invasões mongóis) e mística (pois essa vitória contava claramente com a ajuda dos “deuses” – literalmente, um tufão lutou do lado dos japoneses nas costas do Kyushu – destruindo toda frota mongol em pleno combate – não há outra interpretação possível que não passe por fortes considerações sobre milagre).

Apesar do ambiente de guerra entre países, outra guerra acontecia no Japão: entre homem e natureza.

Existia uma época em que homens, animais, deuses, deuses-animais, demônios e demônios-animais compartilhavam o mesmo ambiente.

O próprio homem é uma espécie de deus e conflitos entre deuses sempre trazem consigo um significado metafísico. Na mitologia grega, a titanomaquia (guerra convocada de Cronos contra Zeus, utilizando-se dos Titãs) é a própria guerra entre tempo e eternidade (discussão que é coroada em Santo Agostinho pelo viés cristológico em Confissões).

No caso aqui, a guerra é entre homens e deuses-animais e o espírito da floresta (uma espécie de entidade tutelar que paira sobre tudo). É a guerra da razão científica (nosso poder como deuses é transformar a matéria – seja em armas ou remédios – a ciência é literalmente uma espécie de magia) contra o ciclo ctônico da natureza selvagem (que é pantanoso, violento, agressivo e que vê a transformação da matéria no pior dos pecados – uma perturbação da ordem).

Tudo isso eu escrevi apenas para tentar definir o cenário.

A animação é dinâmica. Os personagens, os vilarejos e toda fauna (natural e mística) é apresentada de forma ininterrupta e são raras as vezes que são explicadas.

Não é explicado, por exemplo, o motivo do grande espírito da floresta assumir uma forma espectral humanoide gigante e caminhar a noite, nem da sua aparência poder ser transmutada em um cervo com algo parecido com rosto humano.

Essas questões, permeadas de simbolismos e significados, podem ser investigadas na religião (acredito que, especialmente, no xintoísmo) e acho que seria pobre reduzir essa animação num panfleto ecológico barato do Green Peace.

Por exemplo: no começo da animação, um dos animais (um javali) morre e se transforma num demônio por ter seu coração atravessado por uma bala.

A morte aqui não é a questão. Ela é uma coisa natural. A questão é que o ferro tem um simbolismo peculiar nesse contexto pois ele vai representar uma corrupção mística do elemento orgânico: é a razão humana atravessando (literalmente) os limites daquilo que não deveria atravessar.

São várias as vezes que o homem é colocado como um profanador do equilíbrio e uma criatura impertinente.

No entanto, somos criaturas frágeis (lentas, flácidas, sem presas ou garras) e esta é a única forma de garantir nossa existência.

A sobrevivência do homem é garantida pelo artifício (a técnica, a ciência, fazer armas, fazer remédio – enfim, fazer coisas tirando elementos da natureza) – e querer advogar uma subserviência total à natureza ctônica é simplesmente advogar a inexistência do homem.

Este é um filme que transborda muito religião ancestral e pouco da misantropia ecológica dos dias de hoje.

Questões como causa e consequência, puro e impuro são reforçados aqui na potência máxima.

É óbvio que essa inadequação do homem ao meio causa dramas e podem ser fator de desequilíbrios (até irreversíveis) – mas não se pode advogar um em detrimento do outro.

O viés ecológico das animações do Studio Ghibli não é um viés ecológico que brada contra a anulação do homem, mas que propõe um acordo entre cavaleiros entre este e o seu meio (algo que sempre foi MUITO reforçado em QUALQUER religião).

Toda essa perspectiva, bela e moral, é acompanhada de uma qualidade fabulosa de desenho, animação e trilha sonora.

Enfim, não consigo achar defeitos aqui. É literalmente perfeito. Está entre as melhores animações do estúdio como “Conto da Princesa Kaguya” e “Viagem de Chihiro”.

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