“Parasyte: The Grey” é uma adaptação sul-coreana do mangá de Hitoshi Iwaaki. A série faz algumas mudanças em relação à obra original, trocando os personagens e o tom.

Enquanto a obra original é mais cômica, esta versão é mais dramática, explorando os traumas de violência doméstica da personagem principal (que é uma mulher, e não um rapaz).

Nesta adaptação, muitos subtemas são apresentados, mas não são desenvolvidos, como discussões sobre institutos de sobrevivência, noção de identidade e necessidade de controle.

Para ser sincero, não me lembro se a obra original tenta abordar esses assuntos com profundidade ou se eles são apenas sugeridos.

Quando entrei em contato pela primeira vez com a obra de Hitoshi, o que me chamou atenção foi essa mistura de Lovecraft (no design das criaturas), Robert Louis Stevenson (na concepção clássica do “Médico e do Monstro”) e Philip K. Dick do conto “A Coisa Pai” (elaborando a ideia de “invasores de corpos”).

Eu sei que todas essas referências possuem mais significado do que aparentam, mas também se tornaram tão clássicas no imaginário coletivo que hoje já podem ser trabalhadas, remixadas, esvaziadas e remodeladas com outras propostas.

Hitoshi pegou todo esse caldeirão de influências e acrescentou a ideia de humor negro e do “yuru-chara”, termo para designar o gosto muito peculiar dos japoneses por mascotes e guias, algo que está ancorado no xintoísmo e na diversificada fauna folclórica de yokais do país.

Na nossa vida de palpiteiro de cultura pop, tendemos a ver as coisas muito mais complexas do que realmente são.

Às vezes, o drama humano da personagem principal, nessa versão sul-coreana, funciona apenas como um gancho de empatia e nada mais. Às vezes, isso é apenas entretenimento. Foi feito para isso e se resume a isso.

Como os sul-coreanos são mais dados ao drama e tendem a ser mais emotivos (basta ver os tais “k-dramas”), a série deve ter se metamorfoseado ao gosto do público, trazendo um todo arcabouço de agonias pessoais que eles gostam tanto.

Eu particularmente preferiria que os japoneses mesmo adaptassem. Pra mim, eles se articulam mais facilmente com o bizarro (basta ver os comerciais, aliás, basta você caminhar em Akihabara).

No entanto, não estou reclamando. Aliás, nada é mais próprio de “Parasyte” do que se metamorfosear na figura do seu hospedeiro.

Ainda bem que não é uma adaptação americana, onde cada diálogo seria revisado por uma comissão de ESG.

Em suma, é divertidinho. Apesar de ser esquecível.

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