Gokseong, também conhecido como The Wailing, ou, em português, O Lamento, é um filme de terror sul-coreano lançado em 2016 e dirigido por Na Hong-Jin.

Este foi meu primeiro encontro com uma obra do diretor, e estou ansioso para assistir mais filmes de sua autoria, a fim de explorar melhor seu trabalho.

A sinopse do filme é a seguinte: Após a chegada de um enigmático japonês a Gokseong, uma pequena vila nas montanhas da Coreia do Sul, uma misteriosa onda de desgraça se desencadeia, levando os habitantes a perturbações e a cometerem atos violentos contra suas próprias famílias.

Evitarei dar muitos detalhes, pois o filme reserva várias reviravoltas ao longo da trama, gradualmente adentrando em territórios mais evidentes de horror sobrenatural.

Gokseong é um filme que mescla horror folclórico com horror de possessão – no entanto, ele vai além. Como é comum no cinema sul-coreano, há também uma rica camada de subtexto político, mas apresentada de forma inteligente e não panfletária, enraizada nas entrelinhas do roteiro e bem integrada à narrativa. Neste caso, o filme aborda sutilmente a complexa relação entre coreanos e japoneses, alternando entre a representação do personagem japonês como um (suposto) demônio, refletindo a memória coletiva coreana, e uma abordagem autocritica que questiona a possível xenofobia e o medo do ‘outro’, do ‘estrangeiro exilado’, ilustrando como tais sentimentos podem resultar em injustiças contra indivíduos inocentes, mesmo que eles simbólicamente representem “opressores históricos”.

Isso é o que considero incrível no cinema sul-coreano: a falta de pressa em se conformar nos binômios políticos ocidentais que surgiram após a Revolução Francesa. A propósito, sou talvez uma das poucas pessoas a afirmar que o filme Parasita (de Bong Joon-ho) é excepcional justamente por sua ambiguidade, que não está apenas presente apenas no tom do filme, que transita habilmente entre a comédia e o thriller político sério, mas na própria afirmação política.

Tal como em Parasita, O Lamento é um filme habilmente construído em meio a ambiguidades. Na Hong-Jin é um diretor talentoso que consegue manipular muito bem nosso apressado ímpeto de decifrar os mistérios que permeiam a história, despertando em nós a mesma sensação de inquietação e dúvida que aflige os protagonistas. Justo quando pensamos que compreendemos plenamente os acontecimentos, surge uma nova reviravolta para nos convencer do contrário, seguida por uma terceira situação que aparentemente confirma nossa primeira impressão. Contudo, esse vai e vem acaba nos deixando céticos em relação à nossa própria capacidade de afirmar qualquer coisa com convicção.

Isso nos leva a perceber que só conseguiremos verdadeiramente entender o filme quando ele finalmente chega ao seu desfecho – e mesmo assim, o fantasma da ambiguidade aparece para nos assombrar.

Em suma, O Lamento é uma obra que desafia nossa compreensão e nos convida a explorar os recantos mais profundos de nossa própria capacidade de discernimento.

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