O Anjo Embriagado é um filme de 1948 dirigido por Akira Kurosawa e estrelado por Toshiro Mifune.

Essa é a primeira das dezesseis colaborações entre Kurosawa e Mifune.

Trata-se de um drama denso com características típicas de cinema noir, ou seja, composições visuais fotográficas com iluminação baixa (valorizando o uso dramático de luz e sombra) e elementos temáticos envolvendo crimes e máfia.

O filme se passa no Japao pós-guerra, onde temos um cenário decadente e uma crescente atividade de organizações criminosas como a Yakuza, que prospera explorando um contexto que torna as atividades ilegais e o mercado negro especialmente lucrativo.

Uma das coisas mais interessantes do filme é ver que ele orbita em volta de uma horrível fossa purulenta e borbulhante – fonte de doenças no bairro onde a história ocorre.

Esse fosso venenoso cheio de lixo e água biliar pode ser visto como uma ênfase cênica tipicamente dostoievskiana, similar a descrição que o escritor russo (admirado por Kurosawa) fez de São Petersburgo em Memórias do Subsolo.

No entanto, no meio deste lixo, o filme revela aos poucos feições escondidas de beleza.

Acompanhamos Sanada (interpretado por  Takashi Shimura), um médico alcoólatra (o “anjo embriagado” do título) que trata um jovem membro da Yakuza chamado Matsunaga (interpretado por Toshiro Mifune) após este levar um tiro na mão em uma disputa com uma gangue rival.

O médico, percebendo que Matsunaga está tossindo, diagnostica o jovem gangster com tuberculose.

A turbeculose de Matsunaga é decorrente de uma vida de excessos e Sanada alerta-o para este fato.

Matsunaga se recusa a lidar com sua doença e seguir as insistentes orientações de Sanada sobre a necessidade de começar a cuidar de si mesmo, parar de beber e ser mulherengo.

Existe algo interessante na relação entre Sanada e Matsunaga.

A maior parte do tempo, ambos são bem hostis um com o outro – mas existem entre eles uma conexão acidental de pai e filho que se revela na relação de cuidado.

Sanada é um médico grosseiro e mal educado, no entanto, não podemos negar sua bondade, sua empatia e sua disposição de servir ao próximo.

Dentre todos as pessoas que conviveram com Matsunaga, Sanada é a única que pessoa que, no fim das contas, poderia chamar de verdadeiro amigo.

Kurosawa sempre revelou uma certa persistênca em desenvolver temas morais e discussões de valores em seus filmes.

Aqui, vemos um exercício interessante de exposição da bondade, que muitas vezes não se traduz em gentileza.

O Anjo Embriagado nos obriga a ver a bondade para além das aparências e da boa educação e também nos mostra que a humanidade se cultiva mesmo em volta de ruínas e fossas purulentas.

Em suma, O Anjo Embrigado é um grosseiro convite de abandono do niilismo.

 

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