Todos sabem que um dos maiores problemas sociais do Japão é a baixa taxa de natalidade.

Esse problema não afeta apenas o Japão, mas atualmente a China, a Coreia do Sul (em um nível ainda mais alarmante que o Japão) e a Europa.

No entanto, esse problema é acentuado no Japão, pois o país possui a maior expectativa de vida do mundo. O que deveria ser algo positivo torna-se uma das maiores preocupações públicas, pois há uma pressão gigantesca sobre o futuro dos sistemas de seguridade social e saúde.

É importante salientar que a “seguridade social” é algo muito distante no extremo oriente como um todo. Tudo aquilo que entendemos como “entidades de bem-estar social” nasceu na Europa e, especialmente, dentro da Igreja Católica Romana (gostem vocês ou não).

Fora do âmbito da caridade e do trabalho salvífico, as instituições que conhecemos secularizaram-se ao longo do tempo e passaram a ser geridas na esfera da governança burocrática de seus ministérios.

A natural ingerência do Estado normalmente leva os governos a se ancorarem de volta na esfera orgânica da sociedade para realizar um trabalho minimamente satisfatório. No ocidente, instituições públicas geralmente colaboram com as Igrejas no cuidado de asilos.

O Japão é uma sociedade interessante, que foi economicamente ocidentalizada, embora culturalmente ainda seja uma típica e tradicional sociedade pagã do extremo oriente. Isso torna sua sociedade tão exótica e fascinante quanto problemática em outros aspectos.

Sem a menor sombra de influência eclesial em sua sociedade, o governo, que já é ocidentalizado por meio de suas instituições ministeriais e de sua constituição, estabelece uma parceria com a grande indústria privada de cuidados para resolver parte desse problema, o que acaba sendo um refúgio para empreendedores com ética questionável, desempregados, estrangeiros e idosos abandonados pelas famílias.

Atsuhiko Nakamura, o autor deste mangá, trabalhou temporariamente em uma destas instituições e percebeu que este era um setor  povoado por “virgens de meia idade”.

Segundo o autor, há uma política nacional que tem incentivado o direcionamento de toda a mão de obra dos “virgens de meia idade” e da classe social baixa para trabalharem em instituições de cuidados. Isso é fruto de uma certa crise no modelo empregatício japonês e da depreciação do setor secundário da indústria. Os homens que são dispensados das empresas geralmente são encaminhados para esses serviços.

O que o autor nota, com muita sensibilidade (embora o faça também com um certo tom de comicidade), é que os homens que perdem o emprego no Japão acabam se tornando extremamente deprimidos pela vergonha pública e pela honra ferida (outro traço cultural muito distinto do Japão é a preocupação excessiva com a reputação). Logo, os meios de cuidado com idosos acabam sendo um refúgio para homens retraídos, pobres (para os padrões japoneses), com baixa autoestima e virgens.

Atsuhiko Nakamura parte desse meio, mas não se foca apenas nele, provando que é possível ser virgem no Japão de diversas formas.

Além do meio de cuidados com idosos, Atsuhiko Nakamura mostra que o Japão, mesmo na sua expressão mais próspera, se tornou uma sociedade individualizada, virtualizada e marcada pela pobreza de relacionamentos humanos.

Na falta de uma autoimagem positiva e na ausência de relacionamentos reais, há toda uma indústria de entretenimento no Japão que captura a atenção desses indivíduos excluídos e lucra bastante.

Animes, jogos eletrônicos e até fã-clubes de “idols” acabam criando um universo virtualizado onde o sujeito, rejeitado na vida real, é bem aceito, ou tem pelo menos a ilusão disso.

Uma das coisas mais interessantes que Atsuhiko Nakamura faz aqui é traçar uma linha muito clara que vai dos centros de cuidados com idosos até as lojas de eletrônicos, anime e “maid cafés” de Akihabara – como se uma coisa alimentasse a outra.

Ah, sobre os desenhos, os traços de Bargain Sakuraichi são ótimos. Apesar de caricaturais e cômicos, eles não retiram o peso dramático dos personagens.

Normalmente, a discussão aqui sobre “incel” é bem imatura no ocidente, de todos os lados.

Neste mangá-documentário, que só poderia ser escrito por um japonês, a ridicularização não se desenrola em desrespeito, e o efeito cômico das histórias não contradiz o alcance trágico dos personagens.

A maturidade de Nakamura e Sakuraichi está em combinar a piada com uma belíssima mensagem de amor ao próximo (sim, isso mesmo que você leu), como se fosse alguém rindo de outra pessoa no chão e, ao mesmo tempo, lhe estendendo a mão.

Excelente trabalho.

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