Essa obra é um recorte da “Paixão segundo São Mateus” (BWV 244) de Johann Sebastian Bach.

Como todos sabem, a “Paixão segundo São Mateus” segue tanto textos bíblicos quanto textos livres baseados no libretista Picander (pseudônimo de Christian Friedrich Henrici).

Essa liberdade artística em relação ao sagrado pode ser muito perigosa, mas pelo menos aqui resultou em algo positivo. Existe uma intercalação interessante entre esses dois tipos de texto que se desenvolvem ao longo da obra.

Neste disco, a figura de Judas Iscariotes é destacada e pincelada pelo tenor Benedikt Kristjansson, que, em conformidade com a liberdade da obra original, adicionou suas próprias ideias sobre o tema.

Benedikt Kristjansson tem sua própria visão da figura bíblica de Judas, que ficou registrada na memória coletiva do cristianismo como o arqui-vilão. Aqui, ele tenta, à beira da heresia, apresentá-lo não apenas como a figura explicitamente negativa responsável pela morte de Jesus, mas como alguém que “desempenhou seu papel” no inevitável caminho do sacrifício do Messias e, portanto, no cerne do ensinamento cristão.

Não estou me referindo ao conteúdo do texto, que não foi alterado, mas à interpretação confessada por Benedikt em suas intenções.

Benedikt Kristjánsson orienta sua visão de acordo com o que, para ele, é mais apropriado ao pensar em Judas: temos uma peça profética essencial e, ao mesmo tempo, um renegado passional e um traidor relutante.

Para o retrato de Judas, ele escolheu árias e recitativos da obra de Bach e tentou imprimir, em seu canto, a melancolia de um homem que paradoxalmente se condenou e, mesmo assim, pavimentou a missão salvífica de Cristo. Como se sua traição não fosse um muro de iniquidade, mas um painel vítreo para o Céu.

Se é ortodoxo ou não, não me importa; o importante é que isso ficou belo.

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