Martin Scorsese optou por contar a história de Nova York, da guerras religiosas e territoriais entre católicos e protestantes (com óbvias predileções para o lado católico), de forma pitoresca.

O filme apresenta seu conteúdo já na forma – e a forma, aqui, já indica que não seria possível esperar muita profundidade analítica e, muito menos, diálogos cabeçudos e bergmanianos – até aceito as críticas que dizem que o filme, nesse aspecto, é bem superficial e fraco.

No entanto, você deve analisar um filme naquilo que se propõe.

Gangues de Nova York é um filme que se sustenta, principalmente, na produção – e nisso está o contrapeso mais positivo no balanço geral dos seus méritos e defeitos.

Adorei a sua proposta quadrinesca – desde a estética “semi frank-milleriana” da violência, quanto dos exageros do figurino e da paleta de cores.

Para quem está familiarizado com gravuras, litografias e fotografias do século XIX, há citações visuais divertidas ao longo do filme: por exemplo, em uma cena, a câmera desliza por um beco com paredes de tábuas, que tem uma semelhança impressionante com o beco sem saída da Mulberry Street, mostrado na famosa fotografia de Jacob Riis – ‘Bandit’s Roost (1888).

A paisagem de pobreza urbana e cortiços congestionados são misturadas com burlescos e pomposos bordeis e teatros chineses.

Prostitutas zombeteiras, bullyboys sedutores, boxeadores clandestinos, policiais corruptos e cadáveres apodrecendo a céu aberto formam uma composição diversa e uniforme ao mesmo tempo.

Nova York não é apenas um palco de guerra civil, política e religiosa – mas um caldeirão multicultural conflitante, que une forçosamente negros, irlandeses, chineses e nativos americanos – um colorido que se dissolve na mistura sépia uniforme.

Assim como há uma disputa étnica, política e religiosa em Nova York, todos os aspectos de Scorsese também brigam entre si, cada um lutando de forma histriônica pelo espaço na tela – o católico partidário, o documentarista antropólogo e o artista sensacionalista.

Minha principal crítica é que o filme poderia ser BEM menor – basta cortar o desnecessário (e chatíssimo) romance entre Leonardo Di Caprio e Cameron Diaz, que não acrescenta em nada e certamente foi colocado apenas como um chamariz comercial. Tirei duas estrelinhas só por causa disso (e quase coloquei de novo, pois a Cameron Diaz está linda).

Obs: Leonardo DiCaprio deitaria Thomas Shelby na porrada.

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