O início dos anos 1990 foi um período de relativa estagnação para o cinema de terror. O gênero estava enfrentando uma crise de produção, assim como havia acontecido no final dos anos 1930 e 1950.

Os grandes vilões, como Jason Voorhees e Freddy Krueger, embora ainda fossem muito populares, estavam mostrando sinais evidentes de desgaste devido à repetição excessiva.

Os filmes de terror, especialmente os slasher, estavam se tornando previsíveis e estereotipados. Na verdade, no final da década de 80, filmes como “Sexta-Feira 13” e “A Hora do Pesadelo” eram mais divertidos do que assustadores.

Os pequenos distribuidores independentes, que eram a força vital do terror nas décadas de 1970 e 1980, foram à falência.

O terror ficou nas mãos dos grandes estúdios, tornando-se quase impossível para filmes de baixo orçamento chegarem às telas.

Isso sem mencionar as crescentes restrições impostas pela Motion Picture Association of America (MPAA), quando os conservadores, e não os progressistas, se preocupavam com a agenda politicamente correta.

É nesse contexto que “Candyman” surge milagrosamente, quase sem fazer barulho.

Dirigido por Bernard Rose e baseado no conto de Clive Barker intitulado “The Forbidden”, o filme aparece do nada em 1992, trazendo um potencial renovador para o gênero.

A trama se passa em Chicago e gira em torno de uma lenda urbana conhecida como Candyman.

Candyman era um escravo negro do século XIX que se apaixonou por uma mulher branca e foi brutalmente assassinado em um linchamento. Agora, ele é um espírito vingativo que assombra um complexo habitacional chamado Cabrini-Green.

Helen, uma estudante de pós-graduação em antropologia, fica fascinada pela lenda do Candyman e decide investigar mais a fundo.

À medida que ela se aprofunda no mistério, descobre que a lenda é real e que Candyman pode ser convocado ao dizer seu nome cinco vezes em frente a um espelho.

Helen, em uma brincadeira com sua amiga, acaba invocando Candyman e se tornando alvo e testemunha de horrores indescritíveis.

A história é interessante, a violência é impactante e a direção apresenta tomadas surpreendentes, especialmente os planos aéreos vertiginosos. As atuações de Virgina Madsen (interpretando Helen) e Tony Todd (interpretando Candyman) são espetaculares, e a trilha sonora de Philip Glass, com o uso de pianos e coros fantasmagóricos, é extraordinária.

“Candyman” não é apenas um dos filmes mais subestimados do gênero de terror, mas talvez seja o melhor e mais sofisticado slasher já feito (ou um dos melhores).

Além de ser muito bem feito, há um subtexto político muito interessante.

A regra é clara: se um mesmo filme já foi chamado de reacionário e transgressor ao mesmo tempo, então ele provavelmente acertou em cheio.

Particularmente, vejo em “Candyman” um tom de denúncia muito evidente.

Candyman (a entidade), dentro do contexto de uma comunidade violenta como Cabrini-Green, é apenas um dos muitos terrores com os quais os moradores aprendem a conviver.

Ele representa o demônio alegorizado de uma comunidade demonizada na vida real.

O filme não apenas resgata o gênero de terror, mas também abre a caixa de Pandora de todos os tabus da América.

Embora não seja a narrativa central, o filme aborda de forma significativa a degradação das áreas urbanas pobres nos Estados Unidos, o racismo, a miscigenação, o linchamento, a escravidão, a brutalidade das gangues locais, a violência naturalizada e o descaso da polícia nas comunidades negras.

Imagine uma mistura de “A Hora do Pesadelo” e “The Wire” e você terá uma ideia aproximada do que é “Candyman”.

Resumindo, “Candyman” é tudo aquilo que Jordan Peele está tentando fazer até agora com seus filmes.

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