Quando Martin Scorsese dirigiu o fraquíssimo Boxcar Bertha (Sexy e Marginal) em 1972, John Cassavetes disse, com razão, que ele “trabalhou um ano inteiro num belo pedaço de merda”.

Essa crítica pesada aparentemente não criou ressentimentos e foi absorvida da melhor forma por Scorcese, incentivando ele a retornar ao que ele tinha mostrado no excelente filme de estreia, Who’s That Knocking at My Door (1967).

O filme parece ser um desenvolvimento do seu primeiro longa em muitos aspectos (não apenas pelo fato de ter Harvey Keitel como protagonista) – e a ideia era ser, de fato, uma continuação.

Embora seja tecnicamente o terceiro filme do Scorcese, podemos muito bem considerá-lo o segundo (espiritualmente falando), já que a bomba Boxcar Bertha (Sexy e Marginal) foi mais um projeto de Roger Corman do que um filme de Scorsese de fato.

O laço de amizade entre Corman e Scorcese ainda eram presentes.

Scorsese chegou a enviar o roteiro a Roger Corman que concordou em apoiar o filme se todos os personagens fossem negros e o filme fosse um blaxpoitation (isso é sério), mas a decisão da Warner, GRAÇAS A DEUS, retoma a ideia original e a história do filme ronda no universo da “little-italy”, os bairros italo-americanos em Nova Iorque, a própria fauna de Scorsese.

Acompanhamos aqui Charlie (Harvey Kaitel), um jovem ítalo-americano, católico (como de costume), prejudicado por seu sentimento de responsabilidade em relação a seu imprudente amigo mais jovem, Johnny Boy (Robert de Niro – num dos seus melhores papéis), que se recusa a trabalhar e deve dinheiro a muitos agiotas locais.

Ele também está tendo um caso secreto com a prima de Johnny Boy, Teresa, que tem epilepsia.

Charlie também trabalha para seu tio, Giovanni (nesse momento, minha mão está fechada em forma de concha, com a ponta dos dedos coladas), um poderoso mafioso (como de costume), agiota e agente político local, que propôs a ele a sucessão na direção de um restaurante, desde que ele corte relações com Johnny. Afinal, “homens honoráveis andam com homens honoráveis”.

Charlie é, portanto, um homem divido entre sua devoção ao catolicismo e o trabalho ilícito para o seu tio mafioso.
Também é dividido entre a amizade com seu amigo problemático, Johnny Boy, o amor de Teresa, e a sua reputação diante do tio, que espera ele suceda ele nos negócios.

Aqui temos novamente Scorsese sendo Scorsese. Trabalhando com um personagem preso numa irreconciliável encruzilhada escaldante.

Existe ainda algum flerte com o exploitation – talvez, uma influência resquicial do envolvimento de Scorcese com Roger Corman, que não chega a ser negativa – aliás, até adornam o filme com grafismo explícito e histriônico, reforçando o clima de selvageria e loucura dos bairros ítalo-americanos em Nova Iorque dominados pela máfia e pelo crime.

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