As melhores obras de arte, na minha opinião, são aquelas que não se limitam ao escopo restrito de contingências, sejam elas temporais, geográficas ou de gênero literário. Normalmente, elas têm uma característica centrífuga, que parte do indivíduo e se estende até a universalidade.

“A Vida à Deriva” de Yoshihiro Tatsumi é mais do que um mangá biográfico; é também a história de um gênero de mangá (Gekiga), um reflexo da história do Japão de 1945 a 1960 e a história de qualquer pessoa que se sinta “à deriva” no mundo.

Sentir-se “à deriva” no mundo é o elemento universal desta obra.

Em nossas vidas, fazemos muitas escolhas, mas certamente não escolhemos as mais notáveis. Não escolhemos onde nascemos, nem as condições de nosso nascimento. Não escolhemos o país ou nossa classe social. Não escolhemos a época certa ou as condições econômicas ideais. Também não escolhemos nossas vocações e as necessidades da vida que se apresentam.

Yoshihiro Tatsumi, através de seu alter ego Hiroshi Katsumi, narra sua vida como escritor de mangá em Osaka nos anos 50 e seus desafios para conciliar estudos, trabalho, puberdade, família, vocação artística e negócios em um país que tentava se recuperar dos destroços da guerra, enquanto também buscava reconciliar identidade, orgulho, prosperidade econômica, tradição e modernidade.

O Japão estava “à deriva”, assim como Hiroshi, e Hiroshi estava “à deriva”, como qualquer pessoa. O leitor deste mangá, ao terminar a leitura e olhar ao seu redor, sentirá a mesma náusea de um barco à deriva no meio do oceano, sendo levado pelas ondas em direção a um destino incerto.

O mais importante desta obra é mostrar as coisas como são, sem tentar transmitir uma “mensagem” ou oferecer algum ensinamento. Um dos piores males do mundo moderno é ter destruído o senso de hierarquia e nivelado o homem comum ao sacerdote. Quase todo mundo tem um bom conselho para qualquer situação. O homem comum perdeu a capacidade de ser sincero, de assumir não saber lidar com as coisas e de se sentir à deriva.

Não há aqui nenhuma perspectiva pessimista, nem uma visão da vida como uma tragédia grega de sofrimento humano inevitável. Também não encontramos uma mensagem de otimismo ou qualquer bobagem do tipo “siga seus sonhos, tudo dará certo”.

Em resumo, “A Vida à Deriva” traz você, homem e mulher comuns, de volta ao lugar de onde nunca saiu: o mar de incertezas.

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