O filme se passa em Nova York de 1870, no ambiente de uma elite aristocrática e burguesa. Temos Newland Archer, um jovem advogado descente de uma família tradicional que está comprometido com May Welland, também oriunda de uma importante linhagem americana.

O ambiente é todo permeado por convenções e rígidas regras de como agir e se portar.

Todo esse planificado e pacífico modo de vida é abalado com a chegada da bela condessa Ellen Olenska, antigo amor de infância de Newland e prima de May, que retorna da Europa com a pretensão de se divorciar de seu marido abusivo.

A história é basicamente de um triangulo amoroso entre Newland, condessa Ellen Olenska e a adorável May Welland que não se consuma e também não se resolve, por diversos motivos.

Por não se consumar e, ao mesmo tempo, não se resolver, a tríade amorosa da história se torna algo onipresente, que acompanha melancolicamente os personagens até o fim das suas vidas.

A maturidade do filme é mostrar que essa triste conformidade não é algo dramaticamente terrível – nem desejável, obviamente; mas que acontece.

Não é uma história de adultério, mas o adultério é uma neblina que envolve toda a história.

Acredito que até os casamentos mais sólidos e fiéis vivem certa dose de teatralidade e repressão, uns mais outros menos.

Acredito, também, que possamos viver, dedicar e até amar uma pessoa que era, originalmente, nossa “segunda escolha” (sério, isso não é o fim do mundo).

Além do microcosmo do triangulo amoroso semi-platônico, o filme faz uma boa vitrine dos costumes da alta sociedade dos EUA do século XIX e uma boa reflexão sobre costumes e convenções sociais.

As tradições e convenções sociais, quando não entendidas na sua essência, forçam a pessoa viver uma performance.

É interessante como o filme mostra cenas de peças de ópera para evidenciar um paralelo entre os atores em palco e a vida performática e fingida das pessoas da alta sociedade pseudo-nobiliárquica e burguesa, que utilizam do verniz da reputação da sua família como uma espécie joia a ser ostentada em público.

Nesse sentido, é o filme mais machadiano de Martin Scorsese.

Esse verniz de reputação engole os indivíduos desse meio, que precisam a todo momento pesar suas ações e até os mais íntimos pensamentos e opiniões na aprovação social.

Qualquer sinalização de autenticidade significava isolamento radical.

A falta de entendimento das tradições e das convenções sociais, combinadas com a obrigação de praticá-las, mesmo sem entende-las, talvez seja o grande motivo de todas as revoluções sociais, comportamentais e políticas terem partido de uma burguesia esgotada ou de uma classe abastada similar. Todas, sem exceção.

O que Martin Scorsese faz aqui é apresentar, novamente, um estudo antropológico do seu meio ambiente, Nova York, a mesma cidade de “Mean Streets”, “Raging Bull”, “New York, New York”, “Goodfellas”, “Taxi Driver” e tantas outras obras.

A Época da Inocência, originalmente um livro da escritora Edith Wharton de 1920, é ressignificado no contexto geral da obra scorseseana. É como se todo o ambiente de repressão das paixões e o catálogo infinito de regras e etiquetas sociais fervilhasse ainda mais as paixões que desencadearia a explosão passional (e violenta) de “Mean Streets” e “Raging Bull”.

Em suma, uma dos melhores e menos comentadas obras do mestre.

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