A relação do cristianismo com a modernidade

O que tem a ver o Cristianismo com a modernidade? Para José Ortega y Gasset, basicamente tudo. No entanto, diferente dos críticos tradicionalistas pagãos, o Cristianismo não é, nem de longe, o culpado da modernidade. Ele é apenas “a luz” que projetou com mais nitidez a sombra daquilo que sempre esteve posto diante do homem: a noção cristalina de subjetividade.

Para ser mais exato, José Ortega y Gasset diz que a modernidade tem duas raízes históricas profundas: o cristianismo e o ceticismo.

O ceticismo abriu o caminho da dúvida ou sképsis, que confinava aos iniciados em um círculo de pouquíssimas ou nenhuma certeza a respeito do mundo a sua volta (o skeptikoi, aquele que “nada afirma”), pavimentando o caminho para interioridade no qual o cristianismo iria percorrer quase livremente.

O ceticismo é inerente à própria filosofia e foi esta que destronou todos os deuses do panteão: os deuses das flores, dos bosques, dos rios e dos cereais.

Não por um ressentimento anti-religioso, como geralmente se fala, mas pelo exercício de colocar toda a realidade em suspeição.

Isso até o contato com um povo muito peculiar: os judeus.

Os judeus apresentaram a um mundo já “greco-romano” uma ideia de Deus muito diferente, até mesmo oposta daquela que eles conheciam. Um Deus que não está no raio, no oceano ou no trigo, mas além de tudo. Um Deus cujo ser é incomparável a qualquer realidade cósmica. Basicamente, um Deus que se recusava a morrer na iconoclastia do esforço filosófico.

No entanto, o grande abalo sísmico no mundo greco-romano foi o Cristianismo, que assumia o mesmo Deus dos judeus em uma dimensão material, dissolvendo uma falsa contradição que perdurava até aquele momento.

Uma religião que foi muito bem definida por São Paulo como sendo “escândalo para judeus” e “loucura para os gentios”.

Esse Deus não apenas fez tudo e está além de tudo (como acreditavam os judeus), mas “habitou entre nós”.

Vocês até hoje não fazem ideia como isso abalou as noções cosmológicas do mundo.

Os gregos conheciam os deuses que se tornavam corpóreos. Eram cisnes estremecidos em concupiscência com mortais ou touros que corriam com donzelas no lombo.

Os judeus conheciam um Deus criador de todas as coisas e, por definição, que estava acima de tudo, além de tudo.

O que ambos não conheciam era essa conjugação.

O Deus cristão foi realmente a única ideia pura de transcendência que a humanidade conheceu. Não existe outra. Inclusive, não poderíamos conceber a mesma transcendência nem mesmo no próprio judaísmo, pois lhe faltava a dimensão intimada do universo sensível.

O cristianismo aprofundou a dimensão do paradoxo, do intangível que se fazia palpável, da transcendência que se fazia temporal.

À medida que o ceticismo abria os espaços vazios, o cristianismo preenchia.

No entanto, o cristianismo só preenchia as almas mais imaginativas ou confortáveis com esse desvelar do mistério cósmico.

Tudo o que o cristianismo conseguiu fazer foi desvelar uma dimensão de dúvida. As almas que eram muito apegadas a uma pretensão de “gnose” se depararam com algo que nunca tinham enfrentado antes com seriedade: a fé.

Sinto muito, gnósticos, mas diante de tal mistério, o mais sensato é acreditar, não “saber” (pois não dá para saber, de fato).

Isso foi tão incômodo para o mundo que a dimensão do paradoxo que o cristianismo desvelou foi logo denunciada como contradição.

Como assim a transcendência pode se fazer temporal? Como assim o intangível poderia se fazer palpável? Como assim o verbo se torna carne? Como assim Deus é unidade e ao mesmo tempo três pessoas?

O gnosticismo surgiu quase imediatamente nesse ódio. Era necessário até mesmo criar um demiurgo para fugir do paradoxo, do mistério, da falta de resposta e, acima de tudo, da falta de fé dos próprios.

A fé cristã anunciava que a única coisa que “havia” era Deus e o que “somos” é apenas uma manifestação da vontade majestosa do Criador. Em resumo, se Ele não “quisesse”, nós não “seríamos”. Simples assim.

Pela primeira vez, o homem ficou só com Deus.

O cristianismo, para Ortega y Gasset, foi o descobridor da “solidão” como substância da alma.

O Deus cristão é ao mesmo tempo transcendente ao mundo e imanente ao “fundo da alma” (na expressão de Santa Teresa).

Não é por acaso que Santo Agostinho seja o primeiro pensador a entrever o fato da consciência e do ser como intimidade.

E aí que vem a bomba: Santo Agostinho e Descartes compartilham muito mais semelhanças do que cristãos e os homens modernos gostam de admitir.

No entanto, antes de jogarem pedras, não quero dizer que Descartes já está em Santo Agostinho, nem que a modernidade já estava no Cristianismo. No entanto, é inegável que uma coisa decorre da outra.

O que eu digo é o mesmo que disse Chesterton, o homem mais perspicaz e didático que já pisou na Terra: não é que a modernidade não tenha virtudes, o problema da modernidade é que uma época onde as virtudes do cristianismo enlouqueceram.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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