A Importância dos Olhos em Blade Runner (1982, Ridley Scott)

A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;
Mateus 6:22

A linguagem cinematográfica é, por excelência, uma linguagem orientada por imagens em movimento.

Diferente de um livro, onde a história e as suas nuances são orientadas nas palavras, a questão visual no cinema é imperativa.

Toda decisão estética num filme, seja a fotografia, a iluminação, o enquadramento, o movimento de câmera e os cortes, contribuem (ou deveriam contribuir) para condução do fio narrativo.

Por isso, no cinema, a figura do diretor é tão mais próxima do autor do que de um roteirista, por exemplo.

Considerando isso, devemos olhar todos os detalhes e escolhas visuais de um filme não apenas na ótica de um casuísmo, mas de uma escolha narrativa e poética. Devemos ter em mente que forma e conteúdo não são coisas completamente indistinguíveis.

Em Blade Runner, toda arquitetura da megalópole decadente evidenciava o incômodo contraste típico do cyberpunk da literatura de Philip K. Dick: uma simbiose de alta tecnologia e vida suburbana e decadente.

No entanto, não é apenas na grandiosa arquitetura que Blade Runner criava seu subtexto narrativo, mas também em detalhes menos perceptíveis.

Que já assistiu Blade Runner deve ter notado uma curiosa obsessão do diretor nos olhos.

O filme já começa com um close extremo de um olho que preenche toda a tela, revelando a paisagem do filme: uma degradação urbana, um futurismo insalubre, onde a indústria petroquímica se metastaseou com os bairros domiciliares e centros comerciais.

O simbolismo do olho aparece repetidamente em Blade Runner, quase como um refrão de uma música.

O teste Voight-Kampff em Blade Runner, que determina se você é humano ou não, observa o aumento involuntário da pupila e sua dilatação, enquanto um interrogador faz uma série de perguntas aos entrevistados.

O olho é quem denuncia.

Os olhos são amplamente considerados como “janelas para a alma” e o contato visual no filme é uma faceta cardinal da linguagem corporal que inconscientemente demonstra intenção, muito além da linguagem verbal.

Além do teste, as pupilas dos olhos dos replicantes brilham e criam uma sensação mesmerizante de artificialidade espelhada – como se os mesmos não possuíssem vida interna e apenas refletissem o mundo de fora.

Olhar é conhecer tanto as coisas de fora quanto as coisas de dentro. O olho é tradicionalmente considerado o elo entre o mundo interior e o exterior.

Esse vácuo de completude interna se torna uma frustração para os replicantes rebeldes que buscam não apenas a prolongação da própria vida – motivados por um instinto básico de auto-presernvação – mas também uma busca por significância – especialmente o replicante Roy Batty – que sai em busca do seu criador, Tyrell.

Na busca de Roy para “encontrar seu criador”, ele procura justamente Chew, geneticista especializado em olhos sintéticos, que criou os olhos dos replicantes da série Nexus-6 (incluindo os olhos de Roy).

É simbólico que o homem que projetou olhos dos replicantes mostre aos mesmos o caminho para Tyrell na esperança de prolongar suas vidas e obter respostas.

Tyrell vive numa “Fortaleza da Solidão”, cercado por suas criações e à espera do filho pródigo, Roy, o replicante mais perfeito.

A morte de Tyrell, tendo a cabeça esmagada e os olhos pressionados pelos polegares de Roy, remete ao parricídio mitológico de Édipo, que matou o pai e depois arrancou os próprios olhos.

A relação íntima entre visão e conhecimento remete até a metafísica de Aristóteles, que, tal como é próprio dos gregos, consideravam o “ver” como um sentido superior aos outros na busca pela verdade.

A busca sugere um movimento, uma condução em direção a algo. Nossa condição como ser humano é olhar e nos deixar conduzir em direção ao objeto que estamos olhando.

Na mitologia egípcia, dois olhos paralelos eram pintados na lateral das urnas funerárias. O olho esquerdo é ligado à lua, e o direito ao sol. Ambos simbolizariam um ponto focal e também seria a fonte de iluminação que conduziria o cadáver para o caminho que deveria percorrer no além-vida.

O olho-de-órus nos rituais mágicos significa o acesso à sabedoria oculta.

Olhar, buscar e descobrir são coisas relacionadas e o olho é quem liga tudo isso. O olho revela coisas evidentes e não-evidentes. Um replicante é indistinguível de um humano – apenas uma observação profunda seria capaz de distingui-los.

Em suma, Blade Runner é um filme que não apenas é uma obra esteticamente memorável ou politicamente interessante – muito menos deveria ser um objeto de culto apenas entre cinéfilos.

Blade Runner é, também, uma importante peça de resgate para discussões metafísicas.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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